quinta-feira, 29 de maio de 2014

VALORES E HEGEMONIA: UMA CRÍTICA DESBRAVADORA DA AXIOLOGIA

Valores e Hegemonia, uma Crítica Desbravadora da Axiologia

Fabrício Arruda Santos

Um dos mais poderosos sustentáculos da sociedade burguesa é a cultura. Esta é o cimento da dominação burguesa, como já dizia Gramsci. A hegemonia burguesa na sociedade civil é tão forte que até os setores oposicionistas são reprodutores dela, mesmo quando fazem oposição. Isto está presente na razão instrumental, analisada por Horkheimer, no domínio da ideologia dominante, como já apresentado por Marx, mas há algo mais aí. O que é? Eis a pergunta. A resposta pode ser encontrada em um livro recentemente publicado por um dos grandes desbravadores da sociologia brasileira, Nildo Viana, a obra “Os valores na sociedade Moderna”. Nesta obra, Viana desenvolve elementos fundamentais para se pensar a reprodução da sociedade moderna, capitalista.

Uma das bases da ideologia e da razão instrumental, é a axiologia. Por isso a axiologia é mais forte e importante para explicar a dominação cultural burguesa do que a ideologia e a razão instrumental. Não se trata aqui de axiologia como "ciência dos valores", "ramo da filosofia" e sim tal como definida e analisada por Nildo Viana em sua obra Os Valores na Sociedade Moderna. Axiologia significa, neste caso, uma determinada configuração do padrão dominante de valores. Em outras palavras, são os valores dominantes em uma determinada sociedade, que podem assumir várias formas ou combinações (uma determinada configuração). Tais valores são produzidos socialmente, inculcados nos indivíduos desde a infância e o processo de socialização primária, expresso na família, escola, meios de comunicação, brinquedos, etc. Esse processo social de produção de valores está de acordo com as relações sociais existentes, reproduzindo-as e valorandoas. Elas expressam os interesses de reprodução das relações de produção capitalistas e se espalham por toda a vida social, engolindo os indivíduos. As escolhas, decisões, atitudes, idéias, dos indivíduos são condicionadas por seus valores e por isso a base da ideologia dominante e do conservadorismo, mesmo de setores dominados, é a axiologia.

Assim, os valores dominantes formam, nos indivíduos, valores fundamentais que eles reproduzem e internalizam, tornando-se dificilmente removíveis. A busca de ascensão social, sucesso, fama, poder, riqueza, ou seja, o mundo da competição está entranhado nas pessoas, bem como a importância da autoridade, dos dirigentes, dos governantes, dos diretores, e a mercantilização de tudo, no qual o ter predomina sobre o ser, e tudo vale pelo quanto custa. Estes elementos típicos das relações sociais burguesas se reproduzem na esfera dos valores. Trata-se da sociabilidade burguesa fundada na competição, burocratização e mercantilização que produz os valores dominantes e estes, por sua vez, reproduz tal sociabilidade.

Todos os indivíduos possuem valores fundamentais e valores derivados e a sociedade moderna molda os valores fundamentais, que são os correspondentes aos interesses dominantes. Os valores fundamentais são aqueles que ligados à valoração primária e se torna critérios para a valoração secundária, ligada aos valores derivados, ou seja, são meios de escolhas que determinam os demais valores. Isto se revela no nosso cotidiano, escola, ciência, arte, mundo dos objetos. Os filmes, as obras de arte, as produções intelectuais e científicas, são, predominantemente, axiológicos. Os programas de TV, brinquedos, objetos em geral (uma pessoa troca de mesa para ter uma mesa melhor, no sentido de lhe fornecer mais status e lhe colocar um minúsculo degrau acima na escala social) são predominantemente axiológicos. A ideologia tem como base a axiologia. A ideologia, no significado marxista, é uma falsa consciência. Essa falsidade não surge apenas das limitações intelectuais dos indivíduos. Ela surge por outro motivo, o não-querer ver, determinada pelos valores.

Um economista que apela para números para esconder a realidade da exploração, da miséria, do fracasso da qualidade de vida e do bem estar dos indivíduos, não está apenas sendo limitado intelectualmente devido a ideologia dominante na ciência econômica, mas também pelos valores que ele compartilha, a nível geral – predominantes em todos os grupos sociais, tal como a competição, e que se reproduz entre os economistas que, para realizar o valor do sucesso e ascensão social, precisa estar na moda e agradar, para ganhar financiamento, vender livros, etc. – e a nível particular – como economista e portanto indivíduo ressocializado para valorar os números, as estatísticas, dos resultados, em detrimento dos seres humanos. Uma das principais fontes da ideologia, da falsa consciência, é a axiologia.

Depois de perceber essas questões, vem a pergunta: qual a saída? Ou não há saída? Se existem valores dominantes, existem valores não-dominantes. A existência da dominação só pode ser pensada num processo no qual existam dominantes e dominados. A existência de valores dominantes mostra que existem outros valores, pois caso contrário haveria apenas valores, não seriam dominantes e seriam de todos e para todos. É por isso que existem valores divergentes, valores autênticos. Eles são autênticos por expressarem valores correspondentes à natureza humana, ou seja, que estão ligados aos princípios do trabalho não alienado – ou seja, da criatividade – e da cooperação – a sociabilidade entre iguais. Para explicitar estes valores, Viana cunha o neologismo “axionomia”, expressão de determinada configuração de valores autênticos.

A axionomia existe marginalmente na sociedade moderna, em grupos explorados e oprimidos, no proletariado, e outros lugares. Também existe em muitos indivíduos em contradição com outros valores que são portadores. Um indivíduo possui uma escala de valores e conflitos internos entre valores e por isso há uma luta interna dentro do indivíduo, assim como há uma luta social em torno dos valores. Uma das formas de corroer a hegemonia burguesa, afirma Viana, é buscar a transformação dos valores, realizar a crítica da axiologia e a defesa da axionomia. E a consciência tem um papel importante nesse processo, pois há uma influência recíproca entre consciência e valores e os conflitos internos dos indivíduos podem ter uma resolução positiva caso tenham consciência que grande parte dos seus valores são produtos sociais e axiológicos.

Assim, há uma luz no fim do túnel. E não poderia deixar de ser, pois Viana se destaca por ser um dos poucos sociólogos brasileiros originais e que não se rende ao conservadorismo, modismo, colonialismo cultural e que é um desbravador, no sentido que desbrava, abre novos caminhos, inova. Nada mais normal, portanto, que produza mais esta obra desbravadora.

Referência Bibliográfica 18


VIANA, Nildo. Os Valores na Sociedade Moderna. Brasília: Thesaurus, 2007.

Fabrício Arruda Santos
Graduado em ciências sociais pela UFPE – Universidade Federal de Pernambuco.

Revista Es paço Livre, Vol. 5, num. 09, jan-jun./2010

domingo, 18 de maio de 2014

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Chamada de Artigos sobre o tema dos valores - Revista Axionomia



Chamada de Artigos - número 01

A Revista Axionomia lança chamada para sua primeira edição. São aceitos, na seção artigos, textos sobre valores, seja em perspectiva teórica ou análises concretas, e na seção "outros temas", artigos sobre variados temas da área das ciências humanas. Além disso, na seção "resenhas" e "revisão", é possível publicar comentários sobre livros e sobre autores específicos.

A submissão de artigos deverá ocorrer via processo eletrônico, no portal de publicações do REDELP, onde se pode consultar as "diretrizes para autores" da Revista Axionomia, com as normas de publicação e o prazo para o primeiro número é até dia 01 de maio de 2014.

sábado, 2 de novembro de 2013



Chamada de artigos para o dossiê temático:

GERAÇÕES: juventude e velhice na sociedade moderna
Org.: Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luís Antonio Groppo (UNISAL/SP), Nildo Viana (UFG/GO) e Revalino Antonio de Freitas (UFG/GO)

A revista SOCIEDADE E CULTURA torna pública a chamada de artigos para o dossiê temático “Gerações: juventude e velhice na sociedade moderna”, organizado pelos profs. Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luís Antonio Groppo (UNISAL/SP), Nildo Viana (UFG/GO), Revalino Antonio de Freitas (UFG/GO). A publicação é prevista para o v. 17, n. 1, 1º semestre de 2014.
Serão aceitos artigos escritos em português, inglês ou espanhol, que estejam em conformidade com as normas da revista (disponíveis em www.revistas.ufg.br/index.php/fchf), e que digam respeito ao tema proposto pelo/a/s organizador/a/s, assim formulado:

As gerações se encontram entre os temas em evidência na contemporaneidade e o seu conceito comporta múltiplas significações. De acordo com o “olhar” recortado de cada campo de conhecimento ou instituição, elas adquirem contornos que lhes dão conformidade e permitem que sejam identificadas, reconfiguradas, normatizadas, tendo como centralidade temporal os ciclos de vida. Na sociologia, o esforço teórico para apreendê-las como um objeto de investigação tem sido considerável, com destaque para as reflexões teóricas de Karl Mannheim, que de certo modo apresenta à sociologia uma conceituação mais próxima ao conhecimento desse campo científico. Não obstante, do ponto de vista sociológico, o debate teórico e conceitual se encontra em aberto, exigindo atenção e rigor cada vez maior, na medida em que a complexidade da sociedade contemporânea insere novos problemas, tornando mais fluidos os recortes temporais dos ciclos de vida. Esse dossiê se propõe a continuar o salutar debate em curso, a partir de duas fases distintas do processo geracional: a juventude e a velhice. O tema da juventude vem ganhando cada vez mais espaço nas discussões sociológicas. Ao lado da produção mais antiga, novas abordagens e pesquisas passaram a ser realizar, principalmente a partir dos anos 1960 e ganhando novo impulso a partir do início do novo século, o que está relacionado com a mobilização juvenil e estudantil gestada nesse período. As culturas e grupos juvenis, suas lutas e manifestações sociais, suas condições de vida e envolvimento com outros setores da sociedade, tais como escola, meios de comunicação, políticas públicas, são alguns dos temas específicos mais desenvolvidos nessa área. A velhice é a mais recente das gerações a se inserir no campo de investigação sociológica. Sua irrupção resulta da longevidade que tem caracterizado a sociedade contemporânea nas últimas décadas, trazendo à tona a existência social de uma geração até então à margem, e que tem ocupado um espaço crescente na estrutura etária, trazendo novas necessidades e exigindo cuidados próprios de um ciclo de vida que, em si, evoca a preservação dos valores, a memória e a tradição de uma dada sociedade. 

As contribuições devem ser enviadas diretamente para os organizadores, através dos e-mails: nildoviana@ymail.com e freitas@cienciasociais.ufg.br (ou através do portal da revista).
Prazo para o envio: 20 de novembro de 2013.
Além dos artigos para o dossiê, SOCIEDADE E CULTURA também recebe, em fluxo contínuo, outras contribuições: artigos sobre temas diversos, notas de pesquisa, resenhas de livros relevantes nas ciências sociais. Tais textos devem ser enviados aos editores da revista, conforme os meios indicados nas normas para submissão.

Convocatoria de artículos para dossier temático sobre

GENERACIONES: juventud y vejez  en la sociedad moderna
Org.: Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luiz Antonio Groppo (Unisal/SP), Nildo Silva Viana (UFG/GO) e Revalino Antonio de Freitas (UG/GO)

La revista SOCIEDADE E CULTURA torna pública la convocatoria de artículos para el dossier temático “Generaciones: juventud y vejez en la sociedad moderna”, organizado por los profes. Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luiz Antonio Groppo (Unisal/SP), Nildo Viana (UFG/GO) Revalino Antonio de Freitas (UFG/GO). La publicación está prevista para el volumen  v. 17, n. 1, 1º semestre de 2014.
Serán aceptados artículos escritos en portugués, inglés o español, que estén en conformidad con las normas de la revista (consultar en: www.revistas.ufg.br/index.php/fchf), y que se circunscriban al tema propuesto por los organizadores, así formulado:
Las generaciones se encuentran entre los temas en evidencia en la contemporaneidad y su concepto comporta múltiples significados. Bajo un “mirar” recortado en cada campo del conocimiento o institución, ellas adquieren contornos que les dan conformidad y permiten que sean identificadas, reconfiguradas, normatizadas, teniendo como centralidad temporal los ciclos de la vida. En la sociología, el esfuerzo teórico para aprehenderlas en cuanto objeto de investigación, ha sido considerable, con énfasis para las reflexiones teóricas de Karl Mannheim, que de cierto modo presenta a la sociología una conceptualización más próxima al conocimiento de esa campo científico. Sin embargo, el debate teórico y conceptual se encuentra abierto, exigiendo atención y rigor cada vez mayor, en la medida en la complejidad de la sociedad contemporánea insiere nuevos problemas, tornando más fluidos los recortes temporales de los ciclos de la vida. Este dossier, se propone continuar el saludable debate en curso, a partir de dos fases distintas del proceso generacional: la juventud y la vejez. El tema de la juventud viene ganando cada vez más espacio en las discusiones sociológicas. Al lado de la producción más antigua, nuevos abordajes e investigaciones pasaron a ser realizadas, principalmente a partir de los años 1960 para luego ganar impulso a partir de inicio del nuevo siglo, y que está relacionado con la movilización juvenil gestada en ese periodo. Las culturas y grupos juveniles, sus luchas y manifestaciones sociales, sus condiciones de vida y envolvimiento con otros sectores de la sociedad, tales como la escuela, medios de comunicación políticas públicas, son algunos de los temas específicos más desarrollados en esa área. La vejez es la más reciente de las generaciones a incorporarse en el campo de la investigación sociológica. Su irrupción resulta de la longevidad que ha caracterizado a la sociedad contemporánea en las últimas décadas, tornando visible la existencia de una generación hasta entonces al margen, y que ha ocupado un espacio creciente en la estructura etaria trayendo nuevas necesidades y exigiendo cuidados propios de un ciclo de vida que, en sí, evoca la preservación de los valores, la memoria y la tradición de una dada sociedad.

Las contribuciones deben ser enviadas directamente para los organizadores a través de los e-mails: nildoviana@ymail.com y freitas@cienciassociais.ufg.br. (o a través del sitio http://www.revistas.ufg.br/index.php/fchf)
Plazo para envío: 20 de noviembre de 2013.
Además de los artículos para el dossier, SOCIEDADE E CULTURA también recibe, en flujo continuo, otras contribuciones: artículos sobre diversos temas, notas de investigación, reseñas de libros relevantes en las ciencias sociales. Tales textos deben ser enviados a los editores de la revista, conforme los medios indicados en las normas de edición.




Call for papers for thematic dossier:
GENERATIONS: youth and old age in modern society
Org.: Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luiz Antonio Groppo (Unisal/SP), Nildo Silva Viana (UFG/GO) and Revalino Antonio de Freitas (UFG/GO)

SOCIEDADE E CULTURA  (CULTURE AND SOCIETY) publicly announces a call for papers for the thematic dossier " Generations: youth and old age in modern society”, organized by the scholars Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luiz Antonio Groppo (Unisal/SP), Nildo Silva Viana (UFG/GO) and Revalino Antonio de Freitas (UFG/GO)
The v. 17, n. 1, is expected to be released by early 2014.
Articles written in Portuguese, English or Spanish are accepted in conformity with the journal submission guidelines (available in www.revistas.ufg.br/index.php/fchf), in accordance to the theme proposed by the organizers, as follows:
The generations are among the topics highlighted in the contemporaneity and its concept involves multiple meanings. According to the "look" cut off from each field of knowledge or institution, they acquire contours that give them conformity and allow them to be identified, reconfigured, normalized, and having the life cycles as its temporal centrality. In sociology, the theoretical effort to understand it as an object of research has been considerable, with emphasis on the theoretical reflections of Karl Mannheim, which somehow presents to sociology a conceptualization closer to this scientific field. However, from the sociological standpoint this conceptual and theoretical discussion remains open, requiring attention and increasing accuracy, to the extent that the complexity of contemporary society brings new problems, making more fluid the temporal approaches of life cycles. This dossier aims to continue this salutary debate, from two different stages of the generational process: youth and old age. The Youth is gaining more and more space in sociological discussions. Along with the oldest production, new approaches and researches began to be carried out, mainly from the 1960s and gaining new momentum from the beginning of the new century, which is related to youth and student mobilization gestated during this period. Cultures and youth groups, their struggles and social manifestations, their living conditions and involvement with other sectors of society, such as school, media, public policy, are some of the more specific themes developed in this area. Old age is the most recent generation category to enter the field of sociological research. Its irruption is the result of longevity that has characterized contemporary society in recent decades, bringing to the fore the social existence of a generation that had been left, and it has occupied an increasing space in the age structure, bringing new needs and requiring proper care of a lifecycle which itself evokes the preservation of values, memory and tradition of a given society.

Contributions should be sent directly to the organizers via e-mail: nildoviana@ymail.com and freitas@cienciassociais.ufg.br (or at journal’s website http://www.revistas.ufg.br/index.php/fchf)
Deadline for submission: November 20th, 2013.
SOCIEDADE E CULTURA  (CULTURE AND SOCIETY) is an open access, peer-reviewed journal published by Faculdade de Ciências Sociais of the Universidade Federal de Goiás, Brazil.  S&C is published in both print and online versions.
In addition of papers for the dossier, the journal is continuously receiving other contributions: papers on various subjects, research notes, and reviews on relevant books in social sciences.  Papers must be sent to the journal editors according to submission guidelines (see at: www.revistas.ufg.br/index.php/fchf).